Categoria: Política
O Presidente Reeleito
Fevereiro 6th, 2012Tivemos na última terça-feira as eleições estadunidenses, antecedida de muita expectativa, pois na última em 2000, a demora foi desastrosa para o irmão do norte. Desde aquela data foram governados por um presidente que não foi eleito e fico imaginando o tamanho da repercussão se esse episódio tivesse ocorrido aqui na América Latina.
Somente dois candidatos tinham expressão, o próprio presidente, o republicano George W. Bush e seu concorrente democrata John F. Kerry. Havia muita expectativa aqui no Brasil quanto ao ganhador, pois a esperança era de uma direção mais moderada por parte de Kerry, especialmente por ser democrata, embora a caneta presidencial pese nas mãos e as ações sempre são diferentes do discurso. Sempre me pergunto sobre a razão da intensa paixão dos brasileiros pelos democratas.
O republicano ganhou com segurança, sem incidentes e atrasos. Analisando as imagens dele votando, parecia saber que ganharia. Agora o conservadorismo ficou mais forte! Acredito que devemos ter sempre uma dose de conservadorismo, porém não podemos cair para o lado do radicalismo ou fundamentalismo.
Por outro lado, observamos que há uma ligeira negligência com relação ao Brasil e América Latina, talvez positiva. O irmão do norte está totalmente consumido com a sombra de uma recessão, suas tropas em guerra no exterior e outras questões internas. Enquanto isso, a América Latina não incomoda, portanto tem caminho livre, fora do radar do Império. Talvez isso, no fim, seja mais positivo do que uma observação atenta de uma outra administração.
Ainda não sabemos quais serão os desdobramentos dessa eleição, mas fico espantado com os comentaristas. Agora ficaram todos moderados. Antes eram contra o George W. Bush, agora não são tanto. Parace até que bate um esquecimento em todos. O Governo Brasileiro, corretamente, não se pronunciou e não mostrou alinhamento. Isso é importante, porque somos um país de importância, porém ainda dependente das ações externas. Não é aconselhável tomar posições precipitadas que podem trazer problemas de ordem diplomática.
Talvez só iremos perceber no futuro, mas acredito que a democracia esteja mudando. A noção original não cabe mais nas condições atuais. Hoje nos Estados Unidos praticamente não há oposição e quem for contra determinadas ações é tratado como antipatriota. Isso abre caminho para ações radicais, fundamentalismo e finalmente misturar religião com política. Um caminho muito perigoso para a América que se orgulha pelo liberalismo e tolerância. O ocidente que se orgulha pela sua cultura e domínio, não pode se deixar levar por estas ações, pois será então igual aos povos que misturam política, religião e alimentam o fundamentalismo, os quais não entendem a liberdade.
Agora temos as velhas questões: Como essa administração vai tratas as questões ambientais, a causa palestina e o terrorismo mundial.
[], Eduardo Stefani – 04/11/2004
Formação Econômica do Brasil – Reflexões I
Janeiro 31st, 2012Nascer é um grande milagre, crescer um desafio e enteder tudo o que ocorre a nossa volta é praticamente impossível. Como um jovem brasileiro, possuo muitas perguntas em meu interior e para o meu desespero, não encontro respostas. A medida que amadureço, mais perguntas aparecem e passo a viver então com uma grande inquietação.
Desde criança acumulamos conhecimentos passados pelas pessoas mais experientes a nossa volta, as quais muitas delas passaram por momentos difíceis, como podemos verificar pelo estudo da História recente do nosso país. Esses momentos influenciaram a todos, sem exceção. Para alguns de maneira indireta, pois mesmo sem militância, são brasileiros. Outros, sofreram influências diretas, inclusive com perseguições e torturas.
Voltando à questão dos conhecimentos, por mais que haja consciência política nas opiniões, são na maioria das vezes movidas pelo senso comum, sem muito juízo científico. Conforme vamos amadurecendo, percebemos que muito conhecimento foi passado de forma equivocada aos mais jovens, acentuando ainda mais a inquietação. Passamos a ter então narrações diferentes, de acordo com o contador da história, com a influência de diversos fatores, desde seu meio social até a região onde nasceu e residiu.
Diante da inquietação de perguntas não respondidas sobre o que vemos em nosso Brasil, decidi consumir de forma quase compulsiva uma coleção de livros sobre o nosso país, partindo da sociedade brasileira, de sua formação econômica e especialmente sobre o seu pensamento econômico.
Para registrar minhas percepções, resolvi redigir reflexões a medida que leio as clássicas obras, de modo a observar os fatos diante do meu amadurecimento atual, que será inevitavelmente muito ingênuo quando este texto for lido daqui algumas décadas.
A primeira obra clássica que selecionei foi Formação Econômica do Brasil, escrita pelo imortal Celso Furtado, a qual retirou um véo que havia sobre o meu olhar, pois como jovem que tenta envolver-se na contemporaneidade do país, sempre tive a impressão de estar vivendo momentos novos na qual o mundo havia mudado, seja para melhor ou pior.
Minha surpresa ao ler o livro, foi verificar que vivemos exatamente os mesmos problemas há séculos, ou seja, nada mudou, absolutamente nada, mas não podemos alimentar um senso fracassomaníaco e imaginar que tudo é um caos e que vai piorar. Muito pelo contrário, crescemos muito como nação, deixamos de ser um país rural e temos hoje grandes metrópoles, mas a surpresa que citei, trata-se do fato de enfretarmos os mesmos problemas que tínhamos no apogeu da produção de café, ou até mesmo nas que antecederam esta, no tempo em que existiam grandes famílias que comandavam o país do campo.
Quanto aos problemas que enfrentamos, podemos citar sem restrições os frequentes problemas cambiais, inerentes a um país de moeda frágil. Desde tempos remotos temos um descompasso entre o consumo interno de produtos importados, em comparação com a produção de materia prima que é exportada e que depende dos preços do mercado internacional, sensível a oscilações que quase sempre trás as crises para o País. O descompasso afeta toda a economia, pois sempre que a moeda oscila, temos um efeito em cascata, positivo para alguns e negativo para outros.
O livro contém cinco partes, de acordo com 17ª edição. São Fundamentos Econômicos da Ocupação Territorial, Economia Escravista de Agricultura Tropical, Economia Escravista Mineira, Economia de Transição para o Trabalho Assalariado e finalmente, Economia de Transição para um Sistema Industrial.
Cada parte do livro é dividida em vários capítulos que serão citados e comentados, com o objetivo de traçar um retrato do livro, comparando com a nossa realidade. O início será dado naturalmente pelo capítulo I.
O capítulo I, tem como título: Da Expansão Comercial à Empresa Agrícola. Para comentar este capítulo, não podemos deixar de citar o primeiro parágrafo que resume todo o seu conteúdo e será de grande ajuda na análise.
“A OCUPAÇÃO ECONÔMICA DAS TERRAS AMERICANAS constitui um espisódio da expansão comercial na Europa. Não se trata de deslocamentos de população provocados por pressão demográfica - como fora o caso da Grécia - ou de grandes movimentos de povos determinados pela ruptura de um sistema cujo equilíbrio se mantivesse pela força - caso das migrações germânicas em direção ao ocidente e sul da europa.”
É importante analisar este parágrafo, porque é revelador e resume toda a primeira parte do livro. Antes de qualquer colocação devemos admitir que nossa existência aqui, como país, não foi resultado de um cuidadoso deslocamento de população, com o objetivo de fixar residência, onde o novo lar seria tratado com muito carinho.
Foi motivado estritamente por questões comerciais, pela necessidade de expandir os negócios e procurar novas terras para tirar matéria-prima e alimentar os mercados desenvolvidos, interessados em produtos exóticos. O país virou um território para a implantação da empresa agrícola, com o cultivo em larga escala de materia prima que vai diretamente para a mesa do mundo desenvolvido.
Atualmente, uma das questões colocada no comercio exterior do Brasil, é exatamente a necessidade de inserir produtos com maior valor agregado, porque embora séculos já tenham passado, ainda somos o celeiro para o mundo desenvolvido. Plantamos, colhemos e exportamos toneladas de produtos básicos, com um baixo valor agregado que somente nos coloca em situação cada vez mais frágil, pois temos uma sociedade que consome produtos sofisticados, quase sempre adquiridos no exterior. É exatamente neste momento que começa o nosso descompasso.
Ao contrário do que se pode imaginar, a ocupação das Terras Americanas foi resultado único e exclusivo da expansão comercial da Europa. Esta vinha desenvolvendo-se muito bem, com intenso crescimento desde o século XI, porém por volta do século XV, começou a enfrentar momentos de crescente dificuldade.
As linhas orientais que eram responsáveis pelo transporte de produtos de alta qualidade, incluindo manufaturas, sofreram um considerável revés, em virtude das invasões Turcas. A ocupação das Terras Americanas tornaram-se então a solução imediata, que possibilitou uma outra fonte de produtos, contornando o enorme obstáculo otomano. Podemos considerar esse feito, como o maior trifundo dos europeus na época.
A ocupação teve inicialmente dois personagens: Portugal e Espanha. O pequeno reino lusitano não tratou a ocupação com muita prioridade, mas por outro lado, a Espanha encontrou rapidamente o metal mais precioso da humanidade, o Ouro, muito fácil de colher devido ao acúmulo realizado pelas velhas civilizações americanas.
Houve um momento em que a notícia das maravilhas americanas começou a correr por toda a Europa, fazendo com que a postura dos dois países ibéricos mudasse rapidamente.
Outros países europeus desejavam saborear as delícias do novo mundo, deste modo uma instantânea pressão surgiu, juntamente com a alegação que espanhóis e portugueses não tinham direito àquelas terras nas quais não haviam efetivamente ocupado. Esse fato jogou os ibéricos em um corrida para a ocupação definitiva, de modo a evitar que outros tomasse lugar.
Diante da pressão, medidas foram tomadas. A questão é que todo esse empreendimento tinha um custo muito alto, que no caso da Espanha foi financiado pelo ouro e a deixou em posição de superioridade, porém, ela não pôde proteger sua vasta área e concentrou-se apenas no seu rico quinão, e teve assim, que ceder aos invasores, diante do tratado de tordesilhas.
No caso de Portugal, havia somente uma saída imediata, implantar uma empresa agrícola, viável o suficiente para financiar o oneroso empreendimento em terras tão distantes. Temos então, que admitir que Portugal cumpriu essa tarefa muitíssimo bem, criando um lucrativo negócio.
Encerramos, tendo como principal observação, o fato que a ocupação da américa foi um grande negócio, motivado por razões comerciais e políticas. Ao contrário da Costa Africana e Índias Orientais, a América passou a constituir parte integrante da economia européia.
[], Eduardo Stefani – 18/08/2005
Mundo dividido
Setembro 28th, 2010O mundo está dividido! De um lado temos a sociedade desenvolvida e civilizada; de outro, temos pessoas sem expectativas e esquecidas pelo mundo desenvolvido. Em verdade, temos essa situação desde que o capital tornou-se o bem mais precioso do planeta.
Mais uma vez, assistimos ao vivo a um ato de covardia contra pessoas inocentes que estavam a caminho do trabalho. O mais triste é que tanto os autores quanto as vítimas do atentado não sabem o que está havendo.
Temos um mundo injusto desenhado! Alguns têm muito e outros têm muito pouco. Alguns países possuem força para impor suas vontades, mas outros têm como única saída obedecer para não ficarem isolados e perderem a influência que ainda possuem.
De alguns anos para cá, a forma que os oprimidos encontraram para expressar a mensagem é a mais covarde possível, cometendo atos violentos contra inocentes, contra a população civil, enquanto os responsáveis pelas desigualdades no mundo estão protegidos em suas salas confortáveis.
Não desejo aqui proteger os autores de atos covardes, mas mostrar que a situação possui dois lados e que vemos somente um: o nosso lado, o ocidental.
Atentados têm ocorrido todos os dias, mas a maioria não acontece nas capitais cosmopolitas do mundo ocidental, e sim em países que não possuem muita importância em nosso imaginário, com dezenas de mortos. Infelizmente tem sido normal o acompanhamento enfadonho nos noticiários, de tão previsível que a situação se tornou.
Ainda não sabemos se os fatos foram calculados ou se foi mera coincidência. Os ataques ocorreram enquanto a reunião do G8 (Grupo dos oito países mais ricos do mundo) acontecia na cidade de Gleneagles, na Escócia. Um dia antes, Londres foi eleita a cidade para sediar os jogos olímpicos de 2012. Quanto aos jogos, não acredito que seja calculado; mas quanto à reunião do G8, sinceramente prefiro não pensar muito.
Este artigo não tem o objetivo de expressar uma opinião, mas sim de fazer uma reflexão no dia em que mais um atentado ocorreu. É possível que tenhamos isso como rotina, porque outros países já estão na lista para serem os próximos a 'sediar' um atentado.
O mundo virou uma loteria e em qualquer lugar, a qualquer momento, podemos deixar de existir, não por acidente, mas por uma divisão construída por nós.
[], Eduardo Stefani – 07/07/2005
Cadê a Sociedade ?
Setembro 16th, 2009Os brasileiros falam muito sobre corrupção, honestidade, seriedade, moralidade e todos os conceitos filosóficos e subjetivos possíveis. Em geral com um viés fracassomaníano, como se estivéssemos à parte do problema. Desde a minha infância, ouço as mesmas conversas nas mesas de almoço e nas reuniões de família.
Sempre usamos a terceira pessoa, como se todas as dificuldades estivessem lá fora. Assumimos que somos todos bons e que o Brasil é algo surreal, na qual não fazemos parte. O difícil é admitir que o nosso maior inimigo, somos nós mesmos.
Como forma de fugir das responsabilidades, sempre colocamos a culpa no país. Há inúmeros artigos colocando o país como detestável, carente de seriedade e que não tem saída. Os mais pessimistas, embora cidadãos de um país com dimensões continentais, desejam viver sob a bandeira de um império, de modo a fugir das responsabilidades.
A questão que abro agora é sobre o povo que vive nesta rica terra, sobre a sociedade que aqui formou-se. Minha pergunta é : Cadê o cidadão brasileiro?
Falamos, choramos e reclamamos muito, mas pouco fazemos para mudar. Do meu ponto de vista, os cidadãos brasileiros, nós, os habitantes que aqui residem, não estão preparados para ter um país dos sonhos, pelo simples fato de que não há coragem para enfrentar os problemas, de assumir os riscos e admitir as fraquezas.
Como primeiro ato correto vamos acabar com a desigualdade aqui, mas não a econômica que tanto falamos, mas a jurídica que é muito mais séria. Se um cidadão formado e outro em curso, cometerem um crime, cada um vai para um lugar, primeiro sinal de desigualdade jurídica.
Quando o pobre comete uma infração, ele é humilhado e encarcerado, sem chance de maiores explicações. Quando um rico comete, seja qual for a infração, sempre temos um constrangimento, uma falta de coragem de admitir que um nobre ou aristocrata cometeu um crime e que deve como todos os outros, ser julgado e quando necessário, algemado.
O maior escândalo que vi ultimamente, foram os protestos contra a nossa Polícia Federal, por ter cumprido o seu papel e investigado indícios de sonegação e fraudes de importação na maior loja de luxo do Brasil, além da prisão também, de diretores de uma cervejaria, recente também.
Temos ai a elite protegendo a elite, ou seja, quando faço parte da alta casta e vejo um semelhante caindo, mesmo que em virtude de crimes, independente da natureza, logo surge o solidarismo, o apego pessoal e a amizade acima de tudo.
Isso prova que não estamos preparados. Falamos muito, mas quando há uma batida policial em um bairro ou estabelecimento de luxo, ficamos logo espantados, porque deste modo, isso pode acontencer em qualquer lugar e a qualquer um. O medo logo toma conta e recuamos um passo e estamos assim há alguns séculos.
Este texto tem somente o objetivo de reflexão, como tentativa de tirar a culpa das costas do país e fazer com que a sociedade assuma alguma responsabilidade, cada um de nós, habitantes desta abençoada terra, ensolarada e rica, em absolutamente tudo.
O povo que merece grandiosidade deve enfrentar os problemas com coragem. Todos já passaram por isso, e agora está chegando a nossa vez. Espero que seja breve, porque é difícil ter estômago para suportar as mesmas reclamações de quem pouco faz para mudar.
[], Eduardo Stefani – 15/07/2005
Baile na Ilha Fiscal
Junho 28th, 2009Os livros de história brasileira, principalmente aqueles destinados aos alunos de educação primária, tratam a monarquia como algo distante e de certo modo negativo. A literatura em geral cita personagens e fatos históricos remotamente, os distanciando quase que propositalmente da nossa realidade, especialmente quando os fatos referem-se à nossa monarquia.
A surpresa aparece quando com pouca leitura, descobrimos que a volta de um soberano não foi tão remota assim. Tivemos um plebiscito realizado em 1993 para o povo brasileiro escolher entre República presidencialista e monarquia. Não foi surpresa ter a primeira opção como vencedora, mas de qualquer modo, não podemos esquecer que 10% da população escolheu a segunda opção.
Eu pessoalmente comecei a me interessar pela monarquia depois de uma conversa com um livreiro de rua na cidade de São Paulo. Na ocasião, vivíamos numa época de muita ansiedade, pois estávamos no início do segundo semestre do ano de 2002, ou seja, a poucos meses da eleição presidencial na qual o então candidato Lula foi eleito. Depois de muitos anos e uma história conturbada, o Brasil teria então um cidadão brasileiro no sentido literal da palavra, residindo no Distrito Federal e dono de uma caneta com poderes presidenciais.
A ansiedade foi ocasionada pelo que poderia acontecer depois daquele momento, pois como jovem, sempre tive curiosidade de entender a psicologia do Brasil. O ano de 2002 foi também pra mim um período de grandes descobertas, já que a minha literatura estava recheada de obras um tanto excêntricas e eu me surpreendia a cada dia pelos novos olhares que tomava da realidade brasileira e latino-americana.
Grande parte da literatura que citei, foi adquirida através do estimado livreiro, com seu gato preguiçoso como cúmplice das entusiasmadas conversas. Entre os livros que adquiri, posso citar “A Salvação da América Latina” e “Veias abertas da América Latina”. São dois livros que tocaram pela densidade de seu conteúdo e desdobramentos na mente de um jovem procurando grandes heróis entre o nobre povo latino-americano. É lastimável como conhecemos pouco a história do nosso continente.
A compra de um livro era sempre antecedida e seguida de uma apaixonada discussão sobre os destinos possíveis para o Brasil e o mundo. Normalmente o tema do livro inspirava a conversa. Segurando o livro “A Salvação da América Latina” e a alguns meses das eleições presidenciais, perguntei ao livreiro sobre qual modelo político era o mais apropriado para o Brasil. Diante do livro que eu tinha em mãos, tentei ingenuamente prever a resposta.
Eu imaginei que ele fosse responder algo do tipo: Precisamos de um Fidel para o Brasil, ao menos durante alguns anos para dar um jeito na situação. Cheguei a imaginar também que o comentário seria sobre a necessidade de uma revolução sangrenta para livrar o país de traidores e antipatriotas que somente sugam e nada fazem para o bem coletivo. A minha surpresa veio ao escutar dele que o melhor sistema para o Brasil seria a monarquia.
Durante alguns segundos vieram à minha mente todos os livros de história que estudei durante a infância, bem como todas as palavras dos professores, meus país e demais pessoas que ajudaram a formar a minha personalidade e fiquei sem saber como argumentar.
Só fui capaz de pedir uma explicação mais detalhada para ajudar na minha compreensão. Isso provocou novas surpresas que mudou a minha percepção sobre a monarquia e fez-me estudar mais sobre o assunto.
O culto amigo e livreiro argumentou que a única forma de criar condições políticas para um país ainda em acomodação como povo e nação, seria a de possuir um governo com mais continuidade, ou seja, com mais compromissos sobre os desdobramentos de cada ação. Ele quis dizer que atualmente um Presidente da República quando fica no máximo oito anos no poder, não pensa a longo prazo sobre seus atos, porém o nosso país precisa de ações que podem durar décadas ou uma geração.
Cada governante no atual sistema fica no máximo oito anos e a visão de cada um é restrita à própria realidade, sem pensar nas conseqüências para a década ou geração seguinte.
No caso da monarquia teríamos um soberano comprometido com suas ações, de modo que elas não ocasionassem uma tragédia na década seguinte.
Pode ser que a opinião daquele livreiro esteja baseada essencialmente no senso comum, ou mesmo com características predominantemente pessoais. O fato é que aquela conversa explicitou a grande carência que o nosso país possui.
A cada quatro anos temos soluços de otimismo e a cada oito a troca do governante, pelo menos foi assim nos últimos tempos. Além da esfera federal, temos as estadual e municipal, que são tão importantes quanto, porém depois de um governo aparece outro com novas idéias e normalmente ignora as anteriores.
Vamos então imaginar o nosso país com um palácio abrigando a realeza. Poderíamos brincar de cara e coroa com conhecimento de causa e de uma hora para outra seríamos súditos de um soberano. A família real com privilégios de cometer gafes reais e casamentos espetaculares, bem como escândalos e triângulos amorosos. Quem sabe um jubileu, guarda real, bailes, princesas lindas, príncipes com inclinações duvidosas e fatalmente um imposto real para todo país.
Teríamos também um primeiro ministro e se a nossa família real não viesse a ser uma mera exploradora, existiria a chance de ver um governo ao longo de anos trabalhando para não criar uma tragédia em curto espaço de tempo.
Deixando a ficção de lado, a monarquia depois de deposta pela Proclamação da República, tentou através de conspirações, centros de estudos e ações armadas retomar o poder. Durante 30 anos houve movimentos para a volta da monarquia, portanto não podemos ignorá-la.
A história do Brasil possui detalhes que são desconhecidos e aqueles que pensam que os brasileiros não sujaram as mãos de sangue estão enganados. Pena que normalmente nos interessamos pelos detalhes alheios.
Hoje o Brasil está amadurecendo como República e certamente não há espaço para um modelo diferente. Aos poucos estamos tomando consciência das ações a longo prazo que necessitamos como solução para nossos problemas estruturais, deste modo mesmo com diferentes donos de uma caneta presidencial, a tendência é que conquistemos a tão desejada continuidade.
Caso tenhamos uma mudança nos rumos históricos, nos vemos no próximo baile real, quem sabe ainda na Ilha Fiscal.
[], Eduardo Stefani – 26/10/2007
