Categoria: Diplomacia
O Encontro com o Mundo Árabe, 5
Novembro 29th, 2011A quinta e última noite do curso sobre O Mundo Árabe promovido pelo Instituto da Cultura Árabe em São Paulo teve uma mesa de discussão com a presença dos professores José Arbex Jr. (PUC-SP), Michel Sleiman (USP), José Farhat (USJ-Beirute e ESPM), Murched Taha (UNIFESP) e Geraldo Godoy de Campos (ESPM). O tema foi o papel da mídia na questão do árabe como outro e a representação do outro na cultura árabe.
A discussão foi iniciada por Michel Sleiman com um dado muito interessante. Dom Pedro II foi quem fez a primeira tradução da obra As Mil e uma Noites no final do Século XIX. Foi o ponto de partida do estranhamento do ocidente pelo Mundo Árabe. É digno de nota encontrar manuscritos que revelam que nosso último imperador, além de um intelectual, foi capaz de traduzir essa fantástica obra do árabe para o português.
A conversa foi permeada por citações de Drummond de Andrade, incluindo a forma carinhosa como os libaneses as vezes são chamados de turcos, porém fica uma grande questão. Quando seremos capazes de ver os Árabes sem o estasiamento das cores que criamos em nosso imaginário ? Durante a fala do professor, fiz uma grande reflexão e concordei com ele. Desde criança recebemos uma imagem colorida dos Árabes. Gênios, tapetes voadores e tapetes coloridos. Mulheres e danças sensuais, além do Jafar como inimigo supremo nos joguinhos de computador.
Depois desse prelúdio literário, tivemos a entrada realista do José Arbex Jr. Começou com a sugestão que estamos vivendo talvez o momento mais perigoso da história da humanidade. Uma metade da humanidade submetida à fome e subnutrição, com uma metade que nega a existência da outra. Não se produz alimentos, mas sim mercadorias. Quem não tem dinheiro, não come. Mudar essa lógica, somente com uma mudança completa dos princípios que norteiam a vida e produção das nossas sociedades.
Há de se construir uma nova ordem, senão colocaremos a humanidade em risco. Uma mudança de ordem, modelo econômico, etc. Não podemos viver com uma parcela da população mundial que não é considerada humana. O mais chocante e tentar assimilar o fato que os valores dos povos ocidentais foram obtidos com sangue dos povos originários. Daqueles que não eram humanos. Isso foi feito com os nativos e agora fazemos com os povos desprovidos de inserção no grande jogo do capital internacional.
Um pouco sobre a mídia: A Primeira Guerra do Golfo foi a virada de uma guerra convencional com aquela controlada a partir de uma base de alta tecnologia. O fato é como uma pessoa pode acreditar que em uma guerra de 40 dias de bombardeios em uma capital de 4 milhões de habitantes, não provoca mortes. O mais estarrecedor é que o mundo foi convencido disso e realmente no início da década de 90 era óbvio que não houve mortes.
Agora algumas reflexões para finalizar. Os brasileiros que se cuidem. O petróleo aqui é maior do que imaginávamos. Não somos muçulmanos, mas já começamos a sentir o assanhamento do norte do equador.
As cruzadas traduzem uma situação contemporânea: A Turquia até hoje não faz parte da União Européia. Atrevo-me a dizer que nem mesmo faz parte do imaginário do europeu.
Finalmente: A questão Árabe não é a questão Árabe!!!
[], Eduardo Stefani – 29/11/2011
O Encontro com o Mundo Árabe, 4
Novembro 17th, 2011Noite de realismo! O quarto dia do curso sobre O Mundo Árabe promovido pelo Instituto da Cultura Árabe em São Paulo teve a presença da Professora Cristina Pecequilo da UNIFESP. A dicussão sobre a política externa do Brasil no Oriente Médio foi cercada de reflexões sobre qual é o papel do Brasil no mundo e como as oportunidades presentes podem ser bem aproveitadas.
A professora fez um oportuno posicionamento histórico a respeito da presença do Brasil na região e revelou que em verdade estamos diante da retomada de um evento que já ocorreu nos anos 70, mas que ficou estagnada nos anos 80 e com um recuo nos anos 90. Esse posicionamento foi importante porque recentemente muito se falou disso no Brasil, porém com uma aura de novidade, como se a presença brasileira no Oriente Médio fosse inédita. Talvez essa percepção tenha ocorrido por um recente período eleitoral no Brasil e nessas épocas é comum que os temas tomem uma dimensão ideológica.
O fato é que o Brasil vive hoje uma expansão de sua política externa. A presença no Oriente Médio foi retomada e as ações não se limitam somente a essa região. Adicionalmente o Brasil deixou de ficar em uma posição secundária e passou a explicitar posicionamentos, incluindo alguns bastante controversos como o acordo tripartite entre Irã, Turquia e Brasil. O realismo aparece quando o Brasil precisa tomar uma posição e ter uma análise séria sobre os acontecimentos no mundo. O mundo hoje presencia uma queda gradual da influência americana e europeia, porém fica a questão: quais serão os países que vão preencher esse vazio que tende a crescer ? O Brasil estaria preparado a participar de discussões complexas ? Participar de grandes discussões mundiais tem um preço alto e o Brasil precisa estar preparado. Isso inclui não somente as ações da diplomacia, mas uma economia forte com sociedade preparada. A influência global tem um alto custo, portanto é uma reflexão de grandes proporções.
Infelizmente hoje a sociedade brasileira parece não estar preparada. Há ainda posicionamentos com grande ruído, como a ideia de que o Oriente Médio é longe demais para o Brasil tentar exercer alguma influência. Um receio excessivo de tomar um posicionamento que contrarie alguma disposição da atual potência hegemônica. Por outro lado não podemos esquecer que a gradual queda de influência leva a contradições. Uma fase de transição que precisa ser levada em consideração para evitar discursos viciados e fora de contexto. O Brasil mudou. O mundo mudou. Tudo está mudando rápido e não sabemos como o poder será dividido nas próximas décadas. Finalmente estamos diante de uma grande oportunidade, mas é preciso nascer dentro dos brasileiros a vontade de olhar pra frente e não pra cima.
O jogo político é realismo. Precisamos saber diferenciar o discurso político do diplomático. O realismo é tomado de interesses e somente os interesses explicam um posicionamento. A moralidade e paixão não tem muito espaço no jogo internacional, mas nós brasileiros temos a tendência de ler tudo como se fosse uma grande história de amor. A partir do momento em que o Brasil tocar em algum interesse de alguma grande nação, precisamos ser capazes de suportar e não cair rapidamente em desânimo.
Agora o governo Dilma está quase completando um ano. Vimos alguns recuos e retomadas na política externa e a revelação de posicionamentos de Estado e Governo. O desafio é preservar ou reinventar a diplomacia que vinha sendo ativa, de modo a evitar o tipo de diplomacia que tínhamos nos anos 90, a qual era visivelmente tímida.
Fica agora a reflexão final: Questão iraniana. Abstenção do Brasil nos casos Libio e Sírio. Houve uma movimentação diferenciada – BRICs versus EUA ? Reconhecimento do Estado Palestino. Apoio a transição da primavera Árabe. Essas são as realidades e perspectivas que merecem atenção para entender o Brasil no mundo.
[], Eduardo Stefani – 17/11/2011
O Encontro com o Mundo Árabe, 3
Novembro 10th, 2011O terceiro dia do curso sobre O Mundo Árabe promovido pelo Instituto da Cultura Árabe em São Paulo teve a presença do Professor Reginaldo Nasser da PUC-SP. O curioso foi que a introdução para iniciarmos a discussão sobre os EUA e sua política externa com o Oriente Médio foi na verdade uma aula da história americana.
De acordo com o professor é impossível analisar o Oriente Médio sem antes entender quais mecanismos regem a política externa dos EUA desde a fundação da nação. Primeiramente não podemos esquecer que o país foi uma colônia. É importante observar esse fato porque hoje analisamos a grande potência como se ela tivesse nascido já rica e poderosa, mas todo o desenvolvimento histórico é cheio de posicionamentos que indicavam que um dia esse país seria de fato uma grande potência.
Agora vem os fatos: Primeiro esse país fez revolução para alcançar a liberdade. Depois foi a primeira potência fora da Europa e cruzou o atlântico duas vezes para colocar o mundo em ordem depois das recaídas dos europeus. Finalmente e um item que é pouco citado, a Revolução Americana foi anterior a Revolução Francesa, ou seja, vale questionar se os revolucionários franceses sofreram influência do incipiente país americano. É compreensível então que surja o sentido de excepcionalidade na cabeça dos nossos irmãos do norte. A noçao sempre foi que esse país é diferente em essência. Não era como os europeus e precisava fazer tudo diferente, de modo a não repetir os erros do velho mundo.
Observem a vocação do páis: Ainda em 1898 os EUA empreenderam uma ocupação das Filipinas e nas eleições presidenciais de 1900 o assunto principal foi sobre política externa. Esse assunto permeou a vida dos EUA desde o início e não devemos nos espantar com o seu destaque em comparação com outros assuntos.
A nação nasceu com princípios de superioridade moral. Não deveria anexar territórios como os europeus sempre fizeram, mas sim levar a moralidade ao mundo. As guerras não foram travadas contra um inimigo com nome, mas sim em ajuda a algum lado que precisava ser apoiado para afirmar a mensagem moral, em resumo, a justiça. É uma diferença crucial em comparação com os europeus. Enquantos diplomatas europeus se falavam, os seus países se destruíam em guerras. Com os EUA, a estratégia adotada foi a de neutralizar a relação entre indivíduo e Estado, portanto uma figura poderia ser imediatamente tratada como criminoso comum e ser caçado vivo ou morto e isso não mudou muito hoje. É claro que esse conceito hoje é normal e inclusive assimilado pelos países europeus, mas estamos falando de condutas do início do Século XX.
Quando os EUA discutiam isolacionismo e internacionalismo, já começamos a observar a forte influência do Congresso Americano. As ideias de Roosevelt prevaleceram e mostrou que ele e seus amigos conseguiram mudar o destino de uma eleição. As ideias internacionalistas de Wilson foram entendidas muito tempo mais tarde, inclusive em nossos dias.
Entender o Oriente Médio com esse pano de fundo ficou mais fácil. O Presidente Americano pode falar, mas as deciões virão do congresso. Não devemos discutir racionalidade, mas os interesses das partes envolvidas, luta de classes, elite, poder e todas as disputas que forjam uma sociedade, inclusive dentro do próprio Mundo Árabe. Por isso que a discussão sobre o Mundo Árabe não deve virar uma conversa de cozinha, mas preservar a atenção estritamente aos fatos políticos que movem o mundo. Eu também gosto de conversa de cozinha, mas em geral relacionada com aquilo que está prestes a ser degustado. Agora para refletir: O Congresso Americano vetou a entrada dos EUA na Liga das Nações. Algum espanto para outros vetos, mesmo que irracionais ?
[], Eduardo Stefani – 09/11/2011
O Encontro com o Mundo Árabe, 2
Novembro 9th, 2011O Segundo dia do curso sobre o Mundo Árabe promovido pelo Instituto da Cultura Árabe em São Paulo teve a presença do Professor Salem Nasser da FGV. Foi um assunto sensível com debate intenso até o final. O Professor iniciou a sua fala observando o seu compromisso com a própria consciência, consciência com a realidade e os argumentos para dar base a essa consciência.
Diante de assuntos sensíveis não importa se estamos certos ou errados, mas sim se estamos coerentes com a nossa consistência e se temos argumentos para legitimar a nossa fé. Foi uma escola, pois essa abordagem pode ser usada em outros contextos. Vivemos em um mundo com várias dimensoes e nem sempre estamos certos, mas no final prevalecerá a nossa capacidade de dar vida para o que acreditamos.
Saí da apresentação refletindo sobre o que é necessário para se discutir a questão israelo-palestina. Eu confesso que me convenci que somente um cidadão de origem Árabe é capaz de formular uma ideia sobre o assunto, bem como falar sobre os dois olhares. É cercado de grande complexidade e qualquer fala desprovida de conhecimento pode causar constrangimeos irreversíveis.
O que mais chamou a atenção foi o relacionamento entre a questão israelo-palestina com a Primavera Árabe ou Despertar Árabe. O olhar é o seguinte: O assunto está relacionado em virtude da enorme frustação que o Povo Árabe vive hoje. O dilema sobre o que ele foi, o que é e o que poderia ser. Uma reflexão lúcida sobre os erros cometidos pelos Árabes nos últimos 100 anos e o presente. Não é uma questão trivial, especialmente quando analisamos todos os processos colonizadores e a passagem do Mundo Árabe de mão em mão, sempre Européia e nas últimas décadas Norte-Americana, mas de qualquer modo ocidental.
O nome Despertar Árabe é mais conveniente do que Primavera Árabe. Dá o tom de um povo que acorda de um prolongado sono. A questão é que agora não teremos mais surpresas e todos os movimentos são cuidadosamente monitorados, mas não devemos nos esquecer, a situação de cada país é peculiar. Egito, Tunísia, Iémen, Líbia e Síria e outros são diferentes e cada um teve uma abordagem diferente, mas fica a pergunta, como será o caso da Síria? Como ficará a balança de poder na região com uma Síria em convulsão e até que ponto essa convulsão atinge a todas as camadas da sociedade?
Ficará também uma tarefa para nós ocidentais: Como vamos lidar com povos que revolucionam e adotam a democracia como nova forma de governo, mas que nas primeiras eleições elegem Partidos Islâmicos? Se a democracia é a vontade do povo então deve ser respeitada, caso contrário ficaremos diante de enorme parcialidade. Por outro lado penso que enxergamos o Mundo Islâmico de modo monocromático sem analisar a sua capacidade de ser em certa medida democrático.
Bem, como disse no início do texto, o assunto é sensível e prefiro não avançar em minhas divagações antes que eu atinja uma área desconhecida. Se um dia Lawrence da Árabia ficou muito aborrecido com o assunto, porque eu deveria agora tentar fechar a formula mágica. Mas antes de ir embora reflito: não vamos esquecer que existe um cadáver!
[], Eduardo Stefani – 08/11/2011
O encontro com o Mundo Árabe, 1
Outubro 31st, 2011Acabei de chegar de um encontro. Em verdade foi o primeiro dia de um curso sobre o Mundo Árabe com duração de somente cinco dias. Trata-se de uma iniciativa do Instituto da Cultura Árabe e no primeiro dia fomos brindados com uma brilhante apresentação do Professor Mohamed Habib da UNICAMP. Além do seu grande amor pelo Brasil, demonstrou intensa lucidez sobre os fatos recentes que vem ocorrendo e desencadeados pela Primavera Árabe.
Conhecer o mundo é um fenômeno perturbador e eu sai do primeiro dia do curso estarrecido pela sequência lógica de dominação do Mundo Árabe exercida pelo ocidente. Neste ponto eu recomendo o livro ou filme Lawrence da Árabia. É um exemplo real do que significa Império Britânico e suas promessas, além da herança deixada para a próxima hegemonia.
O Mundo Árabe que conhecemos foi jorjado ao final da Primeira Guerra Mundial. Durante o conflito a Inglaterra negociou com dois lados. Inicialmente com os Árabes pedindo apoio e garantindo liberdade àquele povo do então Império Turco-Otomano, e depois com a França, de modo a viabilizar a dominação ao vencerem a guerra. É claro que outros países europeus entraram na partilha, como por exemplo a Itália com a Libia.
Construí esse pano de fundo somente para encadear as minhas ideias, pois ao final o que desejo entender mesmo são os movimentos óbvios de dominação, pois temos condições de colocar em uma folha de papel os fatos que resumem o atual mundo, a começar pela construção e administração do Canal de Suez, além de países sentados sobre infinitas reservas de Petróleo, ou seja, o matéria básica e necessária para a grande revolução ocidental que assistimos nas últimas décadas.
O fato é que não sou Árabe e desejo conhecer o papel do Brasil no meio desse processo. A pergunta que fica em mente é o quanto vale um país ser detentor de infinitos recursos minerais de primeira necessidade em um mundo movido estritamente por essa primeira necessidade. Vivemos em um país que está na ante sala de ser um dos maiores produtores de petróleo no mundo e até o momento não conhecemo nenhum grande produtor de petróleo em que o povo viva em boas condições, com exceção dos Estados Unidos da América. Embora isso não seja amplamente divulgado, nosso irmão do norte está no topo da lista dos maiores produtores, mas por outro lado, consome quase três vezes mais do que produz. Isso significa que a fatia restante tem que ser obtida de outros lugares. Bom, é por aí que começa o jogo internacional que vivemos hoje.
Depois do pano de fundo, a discussão foi o presente. O ditador que caiu no Egito é na verdade o vice do vice de Nasser. O mais interessante é que Mubarak não nomeou um vice, mas caiu diante da insatisfação do povo, mas no final quem tomou o poder foi o exército e os estudantes revolucionários da Praça Tahrir estão neste momento presos. A Líbia por outro lado foi devastada por uma Guerra Civil e levou o povo a se comportar como bárbaros ao capturar seu antigo ditador. Deprecia a identida Árabe e choca o mundo. Enquanto isso o Iémen está em convulsão e não durará muito tempo, mas não se esqueçam da Síria. Essa finalmente certamente terá um destino mais pacífico em virtude dos seus importantes vizinhos.
Penso que eu tenha conseguido fazer uma síntese do que foi o primeiro dia desse empolgante mundo das Relações Internacionais, mas o que mais me chamou atenção foi o intervalo. Muito Kibe e Esfiha e depois pensei, cachorros quentes não cairiam bem naquela ocasião.
[], Eduardo Stefani - 27/10/2011
