Categoria: Diplomacia
Abordagem Constrangedora
Dezembro 9th, 2009No mundo sempre existiu a figura imperial, cada uma em sua época, exercendo o poder com as ferramentas que tinham em mãos. Hoje não é diferente, pois também temos o nosso império contemporâneo, agindo com os recursos disponíveis e exercendo sua influência sob diversas formas.
A grande questão que ainda não foi esclarecida é a abordagem com todos os outros países, alguns ainda ricos e poderosos, mas sem uma influência global. Certamente a abordagem deve ser diferente daquelas que ocorreram no passado, a qual era movida sobre a força da espada e da expansão territorial, onde a bandeira era fincada em cada pedaço de terra ocupado e seu povo escravizado ou anulado de sua própria história.
Devemos observar que as ferramentas disponíveis hoje são diversas. Um país é capaz de expandir seu domínio e influênciar culturas sem dar um único tiro, ou fazendo uma analogia com o passado, sem tocar na espada. Hoje o mercado é globalizado e a informação flui rapidamente, as articulações dentro de uma sala de reunião podem influenciar o mundo todo em poucos minutos. Um pronunciamento pode levar um país ao desespero ou tirá-lo do abismo.
Tudo isso é para demonstrar o momento constrangedor em que vivemos, pois com todos os recursos existentes temos um dominante que dispara tiros para sua ser ouvida. Não conseguiu atingir a elegância de convencer seus parceiros no diálogo, no fascinio financeiro e influência cultural.
Quando observamos o passado recente, concluímos que o mundo sempre esteve aos pés da atual figura imperial, dependendo dela economicamente e culturalmente. Em sua saúde, todos vão bem, se as coisas não estão bem lá, apertem os cintos aqui. A conclusão é que o mundo sempre esteve pré-disposto a ceder diante de sua pressão.
O que vemos hoje é uma irritação com sua abordagem. Salvo os rebeldes clássicos, seus aliados na verdade se submetem ao perceberem que estão sem saída, mas todos eles, quase sem exceção, formulam planos para reduzir tal dependência. Sua abordagem arrogante e agressiva não é compatível com os recursos sutis que existem hoje para exercer a dominação, deste modo no lugar de expandir sua influência sob a admiração de seus parceiros e colonias, vemos um constrangimento generalizado.
Analisando a história recente, observamos também a necessidade constante de um oponente para manter seu povo apreensivo e obter dinheiro fácil para investimentos na área militar. No passado, realmente havia um oponente, com um território determinado e uma política clara sobre como o mundo deveria ser regido. Hoje, pelo contrário, não há um inimigo claro, mas também não sabemos se há realmente um inimigo, pois pode ser uma ilusão que estamos vivendo diante da agressividade cometida contra todos, pois o alvo não é o mundo, mas uma figura imperial.
Por isso, se desejamos paz, não podemos abraçar a primeira causa contra um inimigo que não conhecemos, jogar o mundo contra algo que não é claro, sem fronteiras delimitadas e normalmente gerado pela violência e exploração constante nos lugares onde surgiram.
Talvez a nação dominante ideal seja aquela que reconhece que é um império e não se comporta como uma nação em crescimento. Aquele que já possui o domínio não precisa gritar para preservar o seu papel, basta usar as ferramentas e trabalhar de forma discreta com os outros. Infelizmente temos exatamente o oposto, pois parece mais uma nação recém liberta das garras de seus colonizadores e gritam por liberdade como se descobrissem o significado desta palavra recentemente. As vezes penso que se esqueceram que possuem bases militares espalhadas pelo mundo e uma cultura que influencia todas elas.
O momento agora é de torçer para ações radicais não serem tomadas. Se forem, que o mundo não seja arrastado como cúmplice. Não podemos pagar o preço de uma briga particular, pois cada um tem suas dificuldades e problemas internos. Em nosso país crescer é mais importante do que o ouro negro do Oriente.
[], Eduardo Stefani – 10/03/2005
Com toda pompa e circunstâncias
Novembro 3rd, 2008A diplomacia é uma das poucas áreas de conhecimento recheada de paixões, contradições e mística. Em verdade, defini-la assim é um passo ousado, porque na realidade ela reúne diversas áreas, além de ser complementada pelo toque pessoal do diplomata.
As missões diplomáticas são carregadas de estratégia, defesa de interesses, perda momentânea para ganho futuro, glamour, dissimulação, mentira, blefe e por último, um senso de lealdade com a nação que transcende as aspirações pessoais. Talvez esse último item seja motivo de arrasadores sentimentos de impotência por parte de um diplomata. A carreira da diplomacia é exercida por pessoas brilhantes e de alto potencial intelectual. Como então conviver com a vaidade acadêmica de um intelectual politizado e a missão de cumprir tarefas dadas pelo estado, especialmente quando contrariam as mais íntimas convicções?
A tarefa de representar um país no estrangeiro é nobre. A função e reconhecimento são oficiais e cobertas de elegância, principalmente para o diplomata que tem o privilégio de vivenciar momentos singulares e históricos com a possibilidade de deixar um legado.
Eu devo antes de tudo pedir as mais sinceras desculpas aos diplomatas que estejam lendo este texto, pois embora eu seja um apaixonado pelos assuntos das Relações Internacionais, não tenho o caldo cultural necessário para escrever sobre o assunto, ainda mais fazendo suposições do que seria ou não a atividade de nobre carreira.
Esta paixão levou-me a buscar literatura que pudesse satisfazer a faminta necessidade de entender o mundo, através dos instrumentos usados por todas as nações e deixar aquela visão meramente pessoal do que o mundo deveria ou não ser. Essa visão dura pouco tempo e morre com a ideologia ingênua baseada exclusivamente num mundo melhor, sem pensar na complexa teia de interesses nacionais que nos levam à atual realidade. Somos todos cúmplices de cada ação internacional que levou o mundo ao atual estágio político e econômico.
Ao ler o brilhante texto intitulado “Pompa e Circunstâncias de Gloriosa Carreira” do diplomata brasileiro José Osvaldo de Meira Penna, tive a inspiração de criar este espaço na rede para discutir diplomacia. Devo deixar aqui os meus agradecimentos ao gentil Embaixador Meira Penna pela permissão em usar o título de seu texto.
O texto em questão cita uma obra de Shakespeare que resume a guerra gloriosa como um ato repleto de soberba, pompa e circunstâncias. Em verdade esse é um trecho da obra Othello e cabe perfeitamente na contemporaneidade da diplomacia. Com pompa e circunstâncias a diplomacia é exercida no mundo, deixando para os simples cidadãos a sensação de deslumbre diante das elegantes recepções, viagens e rodadas de negociações.
O outro lado da historia é muito mais cru e determina soberania, sobrevivência, espaço econômico, solução de conflitos e por último, a existência de um país no contexto internacional.
Sejam bem vindos com toda a pompa e circunstância.
[], Eduardo Stefani – 24/10/2007