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Formação Econômica do Brasil – Reflexões I
Nascer é um grande milagre, crescer um desafio e enteder tudo o que ocorre a nossa volta é praticamente impossível. Como um jovem brasileiro, possuo muitas perguntas em meu interior e para o meu desespero, não encontro respostas. A medida que amadureço, mais perguntas aparecem e passo a viver então com uma grande inquietação.
Desde criança acumulamos conhecimentos passados pelas pessoas mais experientes a nossa volta, as quais muitas delas passaram por momentos difíceis, como podemos verificar pelo estudo da História recente do nosso país. Esses momentos influenciaram a todos, sem exceção. Para alguns de maneira indireta, pois mesmo sem militância, são brasileiros. Outros, sofreram influências diretas, inclusive com perseguições e torturas.
Voltando à questão dos conhecimentos, por mais que haja consciência política nas opiniões, são na maioria das vezes movidas pelo senso comum, sem muito juízo científico. Conforme vamos amadurecendo, percebemos que muito conhecimento foi passado de forma equivocada aos mais jovens, acentuando ainda mais a inquietação. Passamos a ter então narrações diferentes, de acordo com o contador da história, com a influência de diversos fatores, desde seu meio social até a região onde nasceu e residiu.
Diante da inquietação de perguntas não respondidas sobre o que vemos em nosso Brasil, decidi consumir de forma quase compulsiva uma coleção de livros sobre o nosso país, partindo da sociedade brasileira, de sua formação econômica e especialmente sobre o seu pensamento econômico.
Para registrar minhas percepções, resolvi redigir reflexões a medida que leio as clássicas obras, de modo a observar os fatos diante do meu amadurecimento atual, que será inevitavelmente muito ingênuo quando este texto for lido daqui algumas décadas.
A primeira obra clássica que selecionei foi Formação Econômica do Brasil, escrita pelo imortal Celso Furtado, a qual retirou um véo que havia sobre o meu olhar, pois como jovem que tenta envolver-se na contemporaneidade do país, sempre tive a impressão de estar vivendo momentos novos na qual o mundo havia mudado, seja para melhor ou pior.
Minha surpresa ao ler o livro, foi verificar que vivemos exatamente os mesmos problemas há séculos, ou seja, nada mudou, absolutamente nada, mas não podemos alimentar um senso fracassomaníaco e imaginar que tudo é um caos e que vai piorar. Muito pelo contrário, crescemos muito como nação, deixamos de ser um país rural e temos hoje grandes metrópoles, mas a surpresa que citei, trata-se do fato de enfretarmos os mesmos problemas que tínhamos no apogeu da produção de café, ou até mesmo nas que antecederam esta, no tempo em que existiam grandes famílias que comandavam o país do campo.
Quanto aos problemas que enfrentamos, podemos citar sem restrições os frequentes problemas cambiais, inerentes a um país de moeda frágil. Desde tempos remotos temos um descompasso entre o consumo interno de produtos importados, em comparação com a produção de materia prima que é exportada e que depende dos preços do mercado internacional, sensível a oscilações que quase sempre trás as crises para o País. O descompasso afeta toda a economia, pois sempre que a moeda oscila, temos um efeito em cascata, positivo para alguns e negativo para outros.
O livro contém cinco partes, de acordo com 17ª edição. São Fundamentos Econômicos da Ocupação Territorial, Economia Escravista de Agricultura Tropical, Economia Escravista Mineira, Economia de Transição para o Trabalho Assalariado e finalmente, Economia de Transição para um Sistema Industrial.
Cada parte do livro é dividida em vários capítulos que serão citados e comentados, com o objetivo de traçar um retrato do livro, comparando com a nossa realidade. O início será dado naturalmente pelo capítulo I.
O capítulo I, tem como título: Da Expansão Comercial à Empresa Agrícola. Para comentar este capítulo, não podemos deixar de citar o primeiro parágrafo que resume todo o seu conteúdo e será de grande ajuda na análise.
“A OCUPAÇÃO ECONÔMICA DAS TERRAS AMERICANAS constitui um espisódio da expansão comercial na Europa. Não se trata de deslocamentos de população provocados por pressão demográfica - como fora o caso da Grécia - ou de grandes movimentos de povos determinados pela ruptura de um sistema cujo equilíbrio se mantivesse pela força - caso das migrações germânicas em direção ao ocidente e sul da europa.”
É importante analisar este parágrafo, porque é revelador e resume toda a primeira parte do livro. Antes de qualquer colocação devemos admitir que nossa existência aqui, como país, não foi resultado de um cuidadoso deslocamento de população, com o objetivo de fixar residência, onde o novo lar seria tratado com muito carinho.
Foi motivado estritamente por questões comerciais, pela necessidade de expandir os negócios e procurar novas terras para tirar matéria-prima e alimentar os mercados desenvolvidos, interessados em produtos exóticos. O país virou um território para a implantação da empresa agrícola, com o cultivo em larga escala de materia prima que vai diretamente para a mesa do mundo desenvolvido.
Atualmente, uma das questões colocada no comercio exterior do Brasil, é exatamente a necessidade de inserir produtos com maior valor agregado, porque embora séculos já tenham passado, ainda somos o celeiro para o mundo desenvolvido. Plantamos, colhemos e exportamos toneladas de produtos básicos, com um baixo valor agregado que somente nos coloca em situação cada vez mais frágil, pois temos uma sociedade que consome produtos sofisticados, quase sempre adquiridos no exterior. É exatamente neste momento que começa o nosso descompasso.
Ao contrário do que se pode imaginar, a ocupação das Terras Americanas foi resultado único e exclusivo da expansão comercial da Europa. Esta vinha desenvolvendo-se muito bem, com intenso crescimento desde o século XI, porém por volta do século XV, começou a enfrentar momentos de crescente dificuldade.
As linhas orientais que eram responsáveis pelo transporte de produtos de alta qualidade, incluindo manufaturas, sofreram um considerável revés, em virtude das invasões Turcas. A ocupação das Terras Americanas tornaram-se então a solução imediata, que possibilitou uma outra fonte de produtos, contornando o enorme obstáculo otomano. Podemos considerar esse feito, como o maior trifundo dos europeus na época.
A ocupação teve inicialmente dois personagens: Portugal e Espanha. O pequeno reino lusitano não tratou a ocupação com muita prioridade, mas por outro lado, a Espanha encontrou rapidamente o metal mais precioso da humanidade, o Ouro, muito fácil de colher devido ao acúmulo realizado pelas velhas civilizações americanas.
Houve um momento em que a notícia das maravilhas americanas começou a correr por toda a Europa, fazendo com que a postura dos dois países ibéricos mudasse rapidamente.
Outros países europeus desejavam saborear as delícias do novo mundo, deste modo uma instantânea pressão surgiu, juntamente com a alegação que espanhóis e portugueses não tinham direito àquelas terras nas quais não haviam efetivamente ocupado. Esse fato jogou os ibéricos em um corrida para a ocupação definitiva, de modo a evitar que outros tomasse lugar.
Diante da pressão, medidas foram tomadas. A questão é que todo esse empreendimento tinha um custo muito alto, que no caso da Espanha foi financiado pelo ouro e a deixou em posição de superioridade, porém, ela não pôde proteger sua vasta área e concentrou-se apenas no seu rico quinão, e teve assim, que ceder aos invasores, diante do tratado de tordesilhas.
No caso de Portugal, havia somente uma saída imediata, implantar uma empresa agrícola, viável o suficiente para financiar o oneroso empreendimento em terras tão distantes. Temos então, que admitir que Portugal cumpriu essa tarefa muitíssimo bem, criando um lucrativo negócio.
Encerramos, tendo como principal observação, o fato que a ocupação da américa foi um grande negócio, motivado por razões comerciais e políticas. Ao contrário da Costa Africana e Índias Orientais, a América passou a constituir parte integrante da economia européia.
[], Eduardo Stefani – 18/08/2005
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