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O Encontro com o Mundo Árabe, 4
Noite de realismo! O quarto dia do curso sobre O Mundo Árabe promovido pelo Instituto da Cultura Árabe em São Paulo teve a presença da Professora Cristina Pecequilo da UNIFESP. A dicussão sobre a política externa do Brasil no Oriente Médio foi cercada de reflexões sobre qual é o papel do Brasil no mundo e como as oportunidades presentes podem ser bem aproveitadas.
A professora fez um oportuno posicionamento histórico a respeito da presença do Brasil na região e revelou que em verdade estamos diante da retomada de um evento que já ocorreu nos anos 70, mas que ficou estagnada nos anos 80 e com um recuo nos anos 90. Esse posicionamento foi importante porque recentemente muito se falou disso no Brasil, porém com uma aura de novidade, como se a presença brasileira no Oriente Médio fosse inédita. Talvez essa percepção tenha ocorrido por um recente período eleitoral no Brasil e nessas épocas é comum que os temas tomem uma dimensão ideológica.
O fato é que o Brasil vive hoje uma expansão de sua política externa. A presença no Oriente Médio foi retomada e as ações não se limitam somente a essa região. Adicionalmente o Brasil deixou de ficar em uma posição secundária e passou a explicitar posicionamentos, incluindo alguns bastante controversos como o acordo tripartite entre Irã, Turquia e Brasil. O realismo aparece quando o Brasil precisa tomar uma posição e ter uma análise séria sobre os acontecimentos no mundo. O mundo hoje presencia uma queda gradual da influência americana e europeia, porém fica a questão: quais serão os países que vão preencher esse vazio que tende a crescer ? O Brasil estaria preparado a participar de discussões complexas ? Participar de grandes discussões mundiais tem um preço alto e o Brasil precisa estar preparado. Isso inclui não somente as ações da diplomacia, mas uma economia forte com sociedade preparada. A influência global tem um alto custo, portanto é uma reflexão de grandes proporções.
Infelizmente hoje a sociedade brasileira parece não estar preparada. Há ainda posicionamentos com grande ruído, como a ideia de que o Oriente Médio é longe demais para o Brasil tentar exercer alguma influência. Um receio excessivo de tomar um posicionamento que contrarie alguma disposição da atual potência hegemônica. Por outro lado não podemos esquecer que a gradual queda de influência leva a contradições. Uma fase de transição que precisa ser levada em consideração para evitar discursos viciados e fora de contexto. O Brasil mudou. O mundo mudou. Tudo está mudando rápido e não sabemos como o poder será dividido nas próximas décadas. Finalmente estamos diante de uma grande oportunidade, mas é preciso nascer dentro dos brasileiros a vontade de olhar pra frente e não pra cima.
O jogo político é realismo. Precisamos saber diferenciar o discurso político do diplomático. O realismo é tomado de interesses e somente os interesses explicam um posicionamento. A moralidade e paixão não tem muito espaço no jogo internacional, mas nós brasileiros temos a tendência de ler tudo como se fosse uma grande história de amor. A partir do momento em que o Brasil tocar em algum interesse de alguma grande nação, precisamos ser capazes de suportar e não cair rapidamente em desânimo.
Agora o governo Dilma está quase completando um ano. Vimos alguns recuos e retomadas na política externa e a revelação de posicionamentos de Estado e Governo. O desafio é preservar ou reinventar a diplomacia que vinha sendo ativa, de modo a evitar o tipo de diplomacia que tínhamos nos anos 90, a qual era visivelmente tímida.
Fica agora a reflexão final: Questão iraniana. Abstenção do Brasil nos casos Libio e Sírio. Houve uma movimentação diferenciada – BRICs versus EUA ? Reconhecimento do Estado Palestino. Apoio a transição da primavera Árabe. Essas são as realidades e perspectivas que merecem atenção para entender o Brasil no mundo.
[], Eduardo Stefani – 17/11/2011