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Trabalho bem feito
O trabalho foi bem feito. Primeiro chegaram e pilharam, depois colonizaram. Quando caíram, tentaram tirar o que podiam, mas ainda assim foi bem feito. A decadência é inevitável, mas o plausível foi a marca no coração dos nativos, e mesmo dos colonos. Ora, até dos colonos. Por que mesmo depois de tantos séculos a contemplação é a mesma ? Parece que não mudou nada e se Dom João desembarcasse hoje a festa seria a mesma.
Dom João não foi um total bonachão e talvez tenha sido o mais sábio naquele momento e quem sabe o mais patriota, mas a questão é: Por que mesmo depois de tanto tempo a contemplação continua a mesma ? Somos dezenas e talvez centenas de vezes maiores, modernos e plurais, mas ainda assim permanece a contemplação.
Se eu continuar comecarei com teorias preconceituosas sobre colonizados e colonos, com o exagero da incapacidade do povo dos trópicos em pensar. Realmente o trópico dá uma certa reticência em trabalhar, especialmente depois dos nossos privilegiados almoços com os destilados nativos, mas no fundo preserva-se uma grande bravura, portanto não cairei nesse erro. Difícil é pensar no frio, umidade e a selvageria dos povos medievais. Enquanto a Europa da Idade Média batia pedras, os povos antigos das Américas desfrutavam de grande desenvolvimento cultural e moral, mas ainda assim permanece a contemplação.
As vezes ao caminhar pelo mundo caio em profunda reflexão em ver os nobres descendentes dos incas, maias e astecas subjugados. Presos no total preconceito, descaso e todos os outros adjetivos possíveis, pois um dia foram um dos povos mais avançados e ricos das Américas ou mesmo do mundo, mas ainda assim permanece a contemplação. Aqueles que vemos nas praças com instrumentos de sons curiosos são em verdade descendetes de avançadas civilizações, mas o que predomina é o nosso traço estritamente europeu.
Penso que não seja conveniente dizer que os europeus são menores, até porque passaram por variados processos de dominação, mas por alguma razão não preservaram a contemplacão. Aqueles homens selvagens que aterrorizaram a ilha que virou um grande reino unido, viraram descendentes e nem por isso contemplam o passado, mas vestem o presente. De certo modo foram descendentes, mas também ascendentes do grande império contemporâneo.
Por outro lado, não podemos negar que esse processo levou séculos, mas aconteceu. A minha grande reflexão é sobre quando conseguiremos repetir a mesma proeza e virar as costas aos ascendentes e passar a criar a própria história. Não devemos nos esquecer que deixamos de ser descendentes. Isso acabou, pois hoje somos ascendentes de alguma coisa que está por vir. É a nossa oportunidade de repetir os atos dos nossos ascendentes, mas de forma que lembre a sofisticação dos nossos nativos.
Bem, acho que falei demais e acredito que ninguém tenha entendido. Em verdade fica uma tentativa de entendimento do quanto somos grandes, porém também pequenos. Eu confesso que tento diariamente entender o que passa pela cabeça deste povo dos trópicos. Embora eu seja um descendente, também quero ser um ascendente.
[], Eduardo Stefani - 27/10/2011