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O encontro com o Mundo Árabe, 1
Outubro 31st, 2011Acabei de chegar de um encontro. Em verdade foi o primeiro dia de um curso sobre o Mundo Árabe com duração de somente cinco dias. Trata-se de uma iniciativa do Instituto da Cultura Árabe e no primeiro dia fomos brindados com uma brilhante apresentação do Professor Mohamed Habib da UNICAMP. Além do seu grande amor pelo Brasil, demonstrou intensa lucidez sobre os fatos recentes que vem ocorrendo e desencadeados pela Primavera Árabe.
Conhecer o mundo é um fenômeno perturbador e eu sai do primeiro dia do curso estarrecido pela sequência lógica de dominação do Mundo Árabe exercida pelo ocidente. Neste ponto eu recomendo o livro ou filme Lawrence da Árabia. É um exemplo real do que significa Império Britânico e suas promessas, além da herança deixada para a próxima hegemonia.
O Mundo Árabe que conhecemos foi jorjado ao final da Primeira Guerra Mundial. Durante o conflito a Inglaterra negociou com dois lados. Inicialmente com os Árabes pedindo apoio e garantindo liberdade àquele povo do então Império Turco-Otomano, e depois com a França, de modo a viabilizar a dominação ao vencerem a guerra. É claro que outros países europeus entraram na partilha, como por exemplo a Itália com a Libia.
Construí esse pano de fundo somente para encadear as minhas ideias, pois ao final o que desejo entender mesmo são os movimentos óbvios de dominação, pois temos condições de colocar em uma folha de papel os fatos que resumem o atual mundo, a começar pela construção e administração do Canal de Suez, além de países sentados sobre infinitas reservas de Petróleo, ou seja, o matéria básica e necessária para a grande revolução ocidental que assistimos nas últimas décadas.
O fato é que não sou Árabe e desejo conhecer o papel do Brasil no meio desse processo. A pergunta que fica em mente é o quanto vale um país ser detentor de infinitos recursos minerais de primeira necessidade em um mundo movido estritamente por essa primeira necessidade. Vivemos em um país que está na ante sala de ser um dos maiores produtores de petróleo no mundo e até o momento não conhecemo nenhum grande produtor de petróleo em que o povo viva em boas condições, com exceção dos Estados Unidos da América. Embora isso não seja amplamente divulgado, nosso irmão do norte está no topo da lista dos maiores produtores, mas por outro lado, consome quase três vezes mais do que produz. Isso significa que a fatia restante tem que ser obtida de outros lugares. Bom, é por aí que começa o jogo internacional que vivemos hoje.
Depois do pano de fundo, a discussão foi o presente. O ditador que caiu no Egito é na verdade o vice do vice de Nasser. O mais interessante é que Mubarak não nomeou um vice, mas caiu diante da insatisfação do povo, mas no final quem tomou o poder foi o exército e os estudantes revolucionários da Praça Tahrir estão neste momento presos. A Líbia por outro lado foi devastada por uma Guerra Civil e levou o povo a se comportar como bárbaros ao capturar seu antigo ditador. Deprecia a identida Árabe e choca o mundo. Enquanto isso o Iémen está em convulsão e não durará muito tempo, mas não se esqueçam da Síria. Essa finalmente certamente terá um destino mais pacífico em virtude dos seus importantes vizinhos.
Penso que eu tenha conseguido fazer uma síntese do que foi o primeiro dia desse empolgante mundo das Relações Internacionais, mas o que mais me chamou atenção foi o intervalo. Muito Kibe e Esfiha e depois pensei, cachorros quentes não cairiam bem naquela ocasião.
[], Eduardo Stefani - 27/10/2011
Trabalho bem feito
Outubro 31st, 2011O trabalho foi bem feito. Primeiro chegaram e pilharam, depois colonizaram. Quando caíram, tentaram tirar o que podiam, mas ainda assim foi bem feito. A decadência é inevitável, mas o plausível foi a marca no coração dos nativos, e mesmo dos colonos. Ora, até dos colonos. Por que mesmo depois de tantos séculos a contemplação é a mesma ? Parece que não mudou nada e se Dom João desembarcasse hoje a festa seria a mesma.
Dom João não foi um total bonachão e talvez tenha sido o mais sábio naquele momento e quem sabe o mais patriota, mas a questão é: Por que mesmo depois de tanto tempo a contemplação continua a mesma ? Somos dezenas e talvez centenas de vezes maiores, modernos e plurais, mas ainda assim permanece a contemplação.
Se eu continuar comecarei com teorias preconceituosas sobre colonizados e colonos, com o exagero da incapacidade do povo dos trópicos em pensar. Realmente o trópico dá uma certa reticência em trabalhar, especialmente depois dos nossos privilegiados almoços com os destilados nativos, mas no fundo preserva-se uma grande bravura, portanto não cairei nesse erro. Difícil é pensar no frio, umidade e a selvageria dos povos medievais. Enquanto a Europa da Idade Média batia pedras, os povos antigos das Américas desfrutavam de grande desenvolvimento cultural e moral, mas ainda assim permanece a contemplação.
As vezes ao caminhar pelo mundo caio em profunda reflexão em ver os nobres descendentes dos incas, maias e astecas subjugados. Presos no total preconceito, descaso e todos os outros adjetivos possíveis, pois um dia foram um dos povos mais avançados e ricos das Américas ou mesmo do mundo, mas ainda assim permanece a contemplação. Aqueles que vemos nas praças com instrumentos de sons curiosos são em verdade descendetes de avançadas civilizações, mas o que predomina é o nosso traço estritamente europeu.
Penso que não seja conveniente dizer que os europeus são menores, até porque passaram por variados processos de dominação, mas por alguma razão não preservaram a contemplacão. Aqueles homens selvagens que aterrorizaram a ilha que virou um grande reino unido, viraram descendentes e nem por isso contemplam o passado, mas vestem o presente. De certo modo foram descendentes, mas também ascendentes do grande império contemporâneo.
Por outro lado, não podemos negar que esse processo levou séculos, mas aconteceu. A minha grande reflexão é sobre quando conseguiremos repetir a mesma proeza e virar as costas aos ascendentes e passar a criar a própria história. Não devemos nos esquecer que deixamos de ser descendentes. Isso acabou, pois hoje somos ascendentes de alguma coisa que está por vir. É a nossa oportunidade de repetir os atos dos nossos ascendentes, mas de forma que lembre a sofisticação dos nossos nativos.
Bem, acho que falei demais e acredito que ninguém tenha entendido. Em verdade fica uma tentativa de entendimento do quanto somos grandes, porém também pequenos. Eu confesso que tento diariamente entender o que passa pela cabeça deste povo dos trópicos. Embora eu seja um descendente, também quero ser um ascendente.
[], Eduardo Stefani - 27/10/2011
Dualidade
Outubro 31st, 2011Eu amo, mas odeio. Quero ficar, mas com intensa vontade de ir. Crítico, mas não gosto de ouvir críticas. Contemplo o fora quando estou aqui dentro, mas tenho saudade aqui de dentro quando estou fora e assim sobrevivo. Sou seduzido pelo espetáculo do capital, mas quando estou nele, vejo o quanto é insignificante.
Contemplo a civilidade de fora e quando estou fora sou civilizado, mas quando estou dentro, a propensão a selvageria é grande. O exercício é difícil e o senso comum diz que aqui dentro nada disso será possível. A civilidade é coisa para o norte, não o nosso norte, mas aquele acima do Equador. É uma grande missão, mas não desisto.
Todos ficam de queixo caído quando fora todos param para cruzarmos a via, mas aqui dentro, isso é um absurdo completo. Por que tamanha resistência de ser grande ?
Eu não estou criticando. Se tirarmos isso, deixaremos de ser o que somos. E se não formos isso, deixaremos de existir. Fomos criados com a matriz da flexibilidade e negociação. Isso é fundamental para o atual mundo de intolerância no qual vivemos. Por outro lado, somos pacientes e tolerantes, mas não deixamos de ser a ponta de lança da violência urbana.
Isso é tudo! Sou brasileiro e sou do Brasil, como todo amante, com amor e intenso questionamento.
[], Eduardo Stefani - 20/10/2011
Paradoxal
Outubro 31st, 2011É algo paradoxal. Quanto mais procuramos a luz, mais encontramos a escuridão. Pergunto-me se a escuridão é a passagem, o caminho do meio e não o início. Se ficamos imóveis, não a vemos, mas também ficamos distantes da luz. Em verdade custa caro, mas determinar se vale a pena não é uma questão a ser respondida no presente.
Será que a forma como nós ocidentais encaramos a cultura nos leva a uma infelicidade a medida que mais cultura obtemos ? Será que os gregos, egípcios, romanos e todas as grandes civilizações viam isso diferente ou é a recente mania ocidental de separar tudo que nos arrasta à escuridão ?
Eu não estou falando de tecnologia e avanços científicos, mas de pura vida. É um grande reduciocismo resumir o mundo a isso que vemos, sem um apelo filósofico que nos eleve, mas aí passaremos a falar de sagrado e a tarefa não é fácil. Afinal, o que é sagrado ? Novamente será que nos ocidentais somos tão monocromáticos que resumimos o sagrado somente uma a figura ?
[], Eduardo Stefani - 18/10/2011
