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Constelação
Em uma bela festa na noite do inverno carioca, entre os garçons servindo champagne e o tilintar agradável das taças, fico sozinho por alguns momentos e resolvo caminhar até a varanda. No caminho, passo por algumas senhoras com brilhantes colares e mostravam fotos umas às outras, das viagens pelo mundo. Do outro lado, senhores engravatados concentrados num belo computador portátil e certamente trabalham com tecnologia.
Quando chego na varanda, fico ali parado com a minha taça, entre um gole e outro, sentindo ar fresco sobre o meu rosto. Sem muito esforço, observo no horizonte uma constelação, muito brilhante por sinal, com luzes desorganizadas e pequenas variações de cores.
A diferença é que há vida naquela constelação, vida inteligente, de pessoas que nascem, vivem e morrem. As vezes morrem, mesmo sem esperar, de forma rápida e indolor. Elas não conhecem a causa daquela situação, somente vivem, com pequenas expectativas e não temem a morte, mas sim a vida, pois para elas, é amarga e cheia de perigo.
Os seres que vivem nessa constelação possuem experiências que são difíceis de explicar. São situações curiosas e contrangedoras, como a leitura dos olhos. Essas pessoas leem os olhos dos outros e veem neles o preconceito silencioso, a pupila que dilata e conta toda a verdade que é sistematicamente negada ou mesmo esquecida.
O interessante é que na constelação, festas também estão acontecendo, porém lá, há o risco de serem interrompidas a qualquer momento, por cidadãos que representam a lei ou por aqueles que desrespeitam a lei. Muitas vezes acabam com uma chuva de estrelas cadentes.
No passado havia o medo de uma invasão alienígena, porém hoje, há o receio que seres da constelação invadam o nosso mundo. Um medo terrível, que um dia em nossas ruas, sejamos agredidos, seja por pura revolta ou consciência da situação em que vivem.
Tudo é um culto à ignorância, do lado de quem não tem a instrução apropriada e do outro, que tem acesso a tudo, mas contaminado por um radicalismo excessivo, culmina em algo conservador, que acaba em um comportamento reacionário e impaciente. As vezes tenho a impressão de que não sabem que no universo é necessário um equilibrio de forças. Não há como viver isolado, sempre influenciamos, ou somos influenciados.
Passou-se dez minutos, até um gostoso perfume tomar conta do ambiente. Não sou um bom conhecedor, mas acho que era realmente envolvente. Sinto uma mão nos meus braços. Ao virar-me, vejo uma bela mulher que chama-me para o grande momento da festa. Com seus bonitos olhos, logo presto atenção para ver se ali havia algum sinal de preconceito. Imediatamente sinto-meculpado, pois como poderia uma mulher tão bela ter um comportamento assim. Entre os clarões dos flashs e olhares cultos dos seres do mundo civilizado, participo da celebração, mas não consigo tirar da cabeça a imagem da constelação.
[], Eduardo Stefani – 11/06/2005