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Os ratos atrás das cortinas
Em algumas reflexões sobre o comportamento dos cidadãos na sociedade, fiz uma analogia com ratos atrás da cortina de um teatro. Eles vivem em comunidade e precisam sobreviver, porém, a comida está no palco e não atrás das cortinas. Será necessário a coragem de um deles para arriscar-se, sair do local seguro e correr até o palco para encontrar a comida, com o risco de ser pego e morto.
Quando há o sucesso, todos são beneficiados e sobrevivem, com dependência total daquele que colocou sua vida em risco para obter o recurso tão necessário para o bem comum. Naturalmente o corajoso será um líder, respeitado e admirado pelos outros.
O problema na situação descrita é que um desequilibrio pode ser criado no momento em que todos sabem, que embora não façam muito esforço, a situação será solucionada por alguém. Pode demorar um pouco mais, ou pouco menos, mas a comida estará disponível de modo seguro. Enquanto isso, cada um cuida de seus interesses até que a comida esteja servida.
Essa analogia representa a situação na qual vivemos, porque sempre estamos em situações que decisões precisam ser tomadas e nem sempre há a mobilização necessária para o rápido desfecho, porque é muito mais confortável ficar atrás das cortinas esperando a solução, do que colocar a cabeça a risco e tentar resolver os problemas com os recursos disponíveis.
Uma nobre missão será encontrar o sentido democrático em todo esse processo, porque partimos do princípio que a coletividade deve decidir e não esperar que uma alma bondosa resolva tudo. O risco começa exatamente aí, porque ao esperarmos a ação isolada de um cidadão, não podemos garantir que o prestígio o e poder obtido pelo sucesso não encante sua mente e começe então, atos isolados com um tom mais radical, sempre aceito por aqueles que estão esperando atrás das cortinas.
O declínio de uma sociedade pode começar assim, quando os interesses individuais estão acima de tudo, não importanto a participação ou decisões em coletivo para o bem comum, pois o que interessa é da porta para dentro, o restante, alguém irá resolver.
Esse comportamento pode ser encontrado nas situações mais cotidianas, desde o vazamento de uma torneira numa área comum, até a votação para continuidade ou suspensão de um processo que afete a todos, os quais devem participar, e não uma pequena minoria, desgastada pelas responsabilidades, tanto coletivas como individuais.
O discurso é bonito, mas a prática terrível. Em virtude das decepções nacionais, é comum a percepção de que a política é algo sujo e desonroso, deste modo, sem peso algum na consciência, a omissão é generalizada diante de todos os fatos. As vezes passamos por cima do mesmo buraco, mas não temos coragem de pegar o telefone e avisar a companhia responsável. O argumento pode ser que isso não resolve, mas será que se houver um ato generalizado de telefonemas sobre o problema ele não será resolvido ?
Em todos os setores a quantidade sempre faz a diferença. A mobilização move montanhas. Será necessário um conflito nacional para todos saírem detrás das cortinas e unirem-se em prol de uma causa comum e o bem estar comum ?
A omissão e sedentarismo dos ratos atrás das cortinas gera um desequilibrio, sentido ao longo do tempo pelo pouco caso nos assuntos coletivos. Quando um rato se destaca, o poder toma conta de seu espírito e novos problemas surgem até que um outro decida adotar a mão de ferro e governar com seus próprios meios, pois ele sabe que o restante está dormente e faminto.
[], Eduardo Stefani – 22/06/2005