| « O breve sabor | Baile na Ilha Fiscal » |
Cadê a Sociedade ?
Os brasileiros falam muito sobre corrupção, honestidade, seriedade, moralidade e todos os conceitos filosóficos e subjetivos possíveis. Em geral com um viés fracassomaníano, como se estivéssemos à parte do problema. Desde a minha infância, ouço as mesmas conversas nas mesas de almoço e nas reuniões de família.
Sempre usamos a terceira pessoa, como se todas as dificuldades estivessem lá fora. Assumimos que somos todos bons e que o Brasil é algo surreal, na qual não fazemos parte. O difícil é admitir que o nosso maior inimigo, somos nós mesmos.
Como forma de fugir das responsabilidades, sempre colocamos a culpa no país. Há inúmeros artigos colocando o país como detestável, carente de seriedade e que não tem saída. Os mais pessimistas, embora cidadãos de um país com dimensões continentais, desejam viver sob a bandeira de um império, de modo a fugir das responsabilidades.
A questão que abro agora é sobre o povo que vive nesta rica terra, sobre a sociedade que aqui formou-se. Minha pergunta é : Cadê o cidadão brasileiro?
Falamos, choramos e reclamamos muito, mas pouco fazemos para mudar. Do meu ponto de vista, os cidadãos brasileiros, nós, os habitantes que aqui residem, não estão preparados para ter um país dos sonhos, pelo simples fato de que não há coragem para enfrentar os problemas, de assumir os riscos e admitir as fraquezas.
Como primeiro ato correto vamos acabar com a desigualdade aqui, mas não a econômica que tanto falamos, mas a jurídica que é muito mais séria. Se um cidadão formado e outro em curso, cometerem um crime, cada um vai para um lugar, primeiro sinal de desigualdade jurídica.
Quando o pobre comete uma infração, ele é humilhado e encarcerado, sem chance de maiores explicações. Quando um rico comete, seja qual for a infração, sempre temos um constrangimento, uma falta de coragem de admitir que um nobre ou aristocrata cometeu um crime e que deve como todos os outros, ser julgado e quando necessário, algemado.
O maior escândalo que vi ultimamente, foram os protestos contra a nossa Polícia Federal, por ter cumprido o seu papel e investigado indícios de sonegação e fraudes de importação na maior loja de luxo do Brasil, além da prisão também, de diretores de uma cervejaria, recente também.
Temos ai a elite protegendo a elite, ou seja, quando faço parte da alta casta e vejo um semelhante caindo, mesmo que em virtude de crimes, independente da natureza, logo surge o solidarismo, o apego pessoal e a amizade acima de tudo.
Isso prova que não estamos preparados. Falamos muito, mas quando há uma batida policial em um bairro ou estabelecimento de luxo, ficamos logo espantados, porque deste modo, isso pode acontencer em qualquer lugar e a qualquer um. O medo logo toma conta e recuamos um passo e estamos assim há alguns séculos.
Este texto tem somente o objetivo de reflexão, como tentativa de tirar a culpa das costas do país e fazer com que a sociedade assuma alguma responsabilidade, cada um de nós, habitantes desta abençoada terra, ensolarada e rica, em absolutamente tudo.
O povo que merece grandiosidade deve enfrentar os problemas com coragem. Todos já passaram por isso, e agora está chegando a nossa vez. Espero que seja breve, porque é difícil ter estômago para suportar as mesmas reclamações de quem pouco faz para mudar.
[], Eduardo Stefani – 15/07/2005