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Baile na Ilha Fiscal
Os livros de história brasileira, principalmente aqueles destinados aos alunos de educação primária, tratam a monarquia como algo distante e de certo modo negativo. A literatura em geral cita personagens e fatos históricos remotamente, os distanciando quase que propositalmente da nossa realidade, especialmente quando os fatos referem-se à nossa monarquia.
A surpresa aparece quando com pouca leitura, descobrimos que a volta de um soberano não foi tão remota assim. Tivemos um plebiscito realizado em 1993 para o povo brasileiro escolher entre República presidencialista e monarquia. Não foi surpresa ter a primeira opção como vencedora, mas de qualquer modo, não podemos esquecer que 10% da população escolheu a segunda opção.
Eu pessoalmente comecei a me interessar pela monarquia depois de uma conversa com um livreiro de rua na cidade de São Paulo. Na ocasião, vivíamos numa época de muita ansiedade, pois estávamos no início do segundo semestre do ano de 2002, ou seja, a poucos meses da eleição presidencial na qual o então candidato Lula foi eleito. Depois de muitos anos e uma história conturbada, o Brasil teria então um cidadão brasileiro no sentido literal da palavra, residindo no Distrito Federal e dono de uma caneta com poderes presidenciais.
A ansiedade foi ocasionada pelo que poderia acontecer depois daquele momento, pois como jovem, sempre tive curiosidade de entender a psicologia do Brasil. O ano de 2002 foi também pra mim um período de grandes descobertas, já que a minha literatura estava recheada de obras um tanto excêntricas e eu me surpreendia a cada dia pelos novos olhares que tomava da realidade brasileira e latino-americana.
Grande parte da literatura que citei, foi adquirida através do estimado livreiro, com seu gato preguiçoso como cúmplice das entusiasmadas conversas. Entre os livros que adquiri, posso citar “A Salvação da América Latina” e “Veias abertas da América Latina”. São dois livros que tocaram pela densidade de seu conteúdo e desdobramentos na mente de um jovem procurando grandes heróis entre o nobre povo latino-americano. É lastimável como conhecemos pouco a história do nosso continente.
A compra de um livro era sempre antecedida e seguida de uma apaixonada discussão sobre os destinos possíveis para o Brasil e o mundo. Normalmente o tema do livro inspirava a conversa. Segurando o livro “A Salvação da América Latina” e a alguns meses das eleições presidenciais, perguntei ao livreiro sobre qual modelo político era o mais apropriado para o Brasil. Diante do livro que eu tinha em mãos, tentei ingenuamente prever a resposta.
Eu imaginei que ele fosse responder algo do tipo: Precisamos de um Fidel para o Brasil, ao menos durante alguns anos para dar um jeito na situação. Cheguei a imaginar também que o comentário seria sobre a necessidade de uma revolução sangrenta para livrar o país de traidores e antipatriotas que somente sugam e nada fazem para o bem coletivo. A minha surpresa veio ao escutar dele que o melhor sistema para o Brasil seria a monarquia.
Durante alguns segundos vieram à minha mente todos os livros de história que estudei durante a infância, bem como todas as palavras dos professores, meus país e demais pessoas que ajudaram a formar a minha personalidade e fiquei sem saber como argumentar.
Só fui capaz de pedir uma explicação mais detalhada para ajudar na minha compreensão. Isso provocou novas surpresas que mudou a minha percepção sobre a monarquia e fez-me estudar mais sobre o assunto.
O culto amigo e livreiro argumentou que a única forma de criar condições políticas para um país ainda em acomodação como povo e nação, seria a de possuir um governo com mais continuidade, ou seja, com mais compromissos sobre os desdobramentos de cada ação. Ele quis dizer que atualmente um Presidente da República quando fica no máximo oito anos no poder, não pensa a longo prazo sobre seus atos, porém o nosso país precisa de ações que podem durar décadas ou uma geração.
Cada governante no atual sistema fica no máximo oito anos e a visão de cada um é restrita à própria realidade, sem pensar nas conseqüências para a década ou geração seguinte.
No caso da monarquia teríamos um soberano comprometido com suas ações, de modo que elas não ocasionassem uma tragédia na década seguinte.
Pode ser que a opinião daquele livreiro esteja baseada essencialmente no senso comum, ou mesmo com características predominantemente pessoais. O fato é que aquela conversa explicitou a grande carência que o nosso país possui.
A cada quatro anos temos soluços de otimismo e a cada oito a troca do governante, pelo menos foi assim nos últimos tempos. Além da esfera federal, temos as estadual e municipal, que são tão importantes quanto, porém depois de um governo aparece outro com novas idéias e normalmente ignora as anteriores.
Vamos então imaginar o nosso país com um palácio abrigando a realeza. Poderíamos brincar de cara e coroa com conhecimento de causa e de uma hora para outra seríamos súditos de um soberano. A família real com privilégios de cometer gafes reais e casamentos espetaculares, bem como escândalos e triângulos amorosos. Quem sabe um jubileu, guarda real, bailes, princesas lindas, príncipes com inclinações duvidosas e fatalmente um imposto real para todo país.
Teríamos também um primeiro ministro e se a nossa família real não viesse a ser uma mera exploradora, existiria a chance de ver um governo ao longo de anos trabalhando para não criar uma tragédia em curto espaço de tempo.
Deixando a ficção de lado, a monarquia depois de deposta pela Proclamação da República, tentou através de conspirações, centros de estudos e ações armadas retomar o poder. Durante 30 anos houve movimentos para a volta da monarquia, portanto não podemos ignorá-la.
A história do Brasil possui detalhes que são desconhecidos e aqueles que pensam que os brasileiros não sujaram as mãos de sangue estão enganados. Pena que normalmente nos interessamos pelos detalhes alheios.
Hoje o Brasil está amadurecendo como República e certamente não há espaço para um modelo diferente. Aos poucos estamos tomando consciência das ações a longo prazo que necessitamos como solução para nossos problemas estruturais, deste modo mesmo com diferentes donos de uma caneta presidencial, a tendência é que conquistemos a tão desejada continuidade.
Caso tenhamos uma mudança nos rumos históricos, nos vemos no próximo baile real, quem sabe ainda na Ilha Fiscal.
[], Eduardo Stefani – 26/10/2007